PAULO FRANCIS: 90 ANOS DO SALTIMBANCO POLEMISTA QUE MARCOU O JORNALISMO BRASILEIRO



Em setembro, o carioca Paulo Francis completaria 90 anos. 

É uma referência histórica do jornalismo brasileiro. Morreu em 1997.

Foi um crítico de artes informadíssimo. 

Analista político afeito a caricaturas cruéis, ex-ator na juventude, diretor de teatro, romancista e, principalmente, polemista, Francis desenvolveu estilo único.


Se escrevesse sobre o Papa, descreveria a intimidade do pontífice como alguém que tomava com ele café da manhã diariamente. 

A mesma coisa se o tema fosse Chaplin, Indira Gandhi ou Paschoal Carlos Magno.

Colecionava enciclopédias e dicionários,como Millôr Fernandes e Luiz Fernando Veríssimo.  era leitor voraz e onívoro.

 

Um estilo marcado por agressividade cheio de manobras retóricas em que a ironia era o menor dos venenos dita com a simplicidade de uma conversa na esquina. 

Paulo Francis lançava pedradas politicamente incorretas nas vitrines da cultura e da civilização. 


No início da carreira, anos 1950, situava-se à esquerda no campo ideológico. Foi fascinado pela inteligência de Trotski. 

Esteve entre os fundadores do semanário iconoclasta Pasquim. 

Foi preso várias vezes pela ditadura militar de 1964. Os militares não suportavam as críticas que ele fazia. 


Ao final, nos anos 1990, ostentava um conservadorismo liberal em certos momentos repugnante e em outros momentos abjeto.  

Eis a introdução de uma crítica, publicada no Pasquim, de “Morte em Veneza” (Luchino Visconti, 1971), mega clássico premiado do cinema no século XX e incensado, com razão, pela crítica internacional. Em poucas linhas, o melhor e o pior da personalidade do analista: 


“Se você é homossexual e gosta de meninos, ‘Morte em Veneza’, de Luchino Visconti, é o filme. Já se você leu - sexo à parte - o original de Thomas Mann, talvez partilhe o meu vago instinto assassino contra Visconti.

“A irônica e grande metáfora, no livro, sobre o conflito - insolúvel? - entre o espírito e a carne virou a caçada dum menino deslumbrante por uma bicha velha e enrustida. É a metamorfose de Kafka, ao vivo”.

 

O texto, no entanto, recorre a Freud e a Nietzsche, estabelece parâmetros entre Mahler e Goethe, cita Agatha Christie, Lukács e Aldous Huxley… uma visada sobre aspectos da cultura e arte europeias e suas tensões e decadências que obrigam o leitor a expandir seu repertório cultural. 


Francis foi o polemista. Na tradução norte-americana de H.L. Mencken e na brasileira de Maciel Pinheiro, Agripino Griecco e Oswald de Andrade.  

Da polêmica como método de persuasão, foi mestre da controvérsia, do blefe temerário, esgrimiu ceticismo e humor, manejou nuances da emoção e sacolejou dilemas como poucos.  Os textos de PF geraram muitos estudos sobre narrativa jornalística, memorialismo, análise política...

 

A maioria dos textos que escreveu sobre política fundamenta a ideia de um Brasil desigual massacrado por elites desavergonhadas.

 

Uma elite que ele encarnou como ninguém. 


(WG)


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