Wills monumental
WALTER GALVÃO - Aconteceu a morte de Wills Leal nesta quinta-feira. Era um homenino de 83 anos, 83 séculos condensados de criatividade no bater de asas desse anjo profano.
Anjo da mobilização em prol de um mundo céu para o viver coletivo.
Para mim, representa essa tragédia natural uma traição ao humanismo. Ele colonizou, cheio de humanidade, corações e mentes. Tinha a mente a mil.
Suas ideias transformadoras se alastraram por décadas, inoculando em pessoas e corporações a reflexão crítica, a necessidade do desenvolvimento do potencial artístico, cultural, industrial e urbanístico da sociedade contemporânea.
Sinto a morte de Wills como afronta à inteligência múltipla que a alguns poucos o cosmo favorece.
Wills era sempre muito entre esses poucos com seus passos de cisne gigante.
É uma perda cinematográfica para o Brasil.
É uma dor a mais neste quadro de desolação política e isolamento social.
Uma dor especial.
Perdoem-me o clichê, mas é como se o clichê fosse uma encomenda para descrever a situação:
“A Paraíba perde um dos seus mais expressivos ativistas culturais”.
Mas é isso mesmo. O militante mais intenso a propagar conhecimentos.
O entusiasta sem par da cultura fílmica. Um ideólogo.
Tivesse Wills nascido no século XVIII, e seria descrito como polígrafo, alguém de mente privilegiada capaz de falar e escrever sobre tudo.
Nascido no século XX, Wills fez-se o factotum por excelência: ativista capaz de a tudo resolver.
Século XXI, eis Wills o conteudista multimidiático à vontade nos meios globalizados de comunicação.
Em qualquer tempo, visionário, profeta, pioneiro.
Foi um dos últimos intelectuais públicos paraibanos. Wills, “fino como um palito e alto como um coqueiro”, como o descreveu o acadêmico Guilherme d’Avila Lins, foi o “jack off all trades”, na definição de Evandro Nóbrega, o faz-tudo a qualquer hora sob o céu das nossas carências, urgências e efervescências culturais.
Sobre ele, escreveu Luiz augusto Crispim: “Em verdade, faz tempo que Wills Leal inventou turismo na Paraíba. Ninguém foi mais perfeito nessa arte. Um técnico do mais alto conceito e um intelectual da melhor extração. Singular mistura de Dom Quixote com Tony Perkins, um patrimônio da Paraíba”.
Inquietação, curiosidade, provocação, agitação, inteligência descreviam muito bem o escritor autor de 20 livros, de mais de 20 filmes, dezenas de projetos sociais, milhares de artigos, graduado em filosofia e especializado em jornalismo, o crítico e cronista da coluna “Veneziana” no jornal O Norte dos anos 1950.
Ao participar, em 1961, da Segunda Semana Nacional dos Estudantes de Filosofia, em Curitiba (PR), despertou a atenção da imprensa nacional ao propor para um curso sobre o “espírito da aventura brasileira” na trajetória da modernidade ocidental. O visionário de sempre.
Fundou a revista Filmagem e a Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba que inspirou uma associação brasileira.
Idealizou e fundou a Academia Paraibana de Cinema.
Conceituou e viu nascer a Roliúde Nordestina e a Festa do Bode Rei no município de Cabaceiras (PB).
Criou o Festival da Galinha de Capoeira em Alagoa Nova, município onde nasceu.
Atuou como secretário de José Américo de Almeida, professor no Rio de Janeiro, em Brasília, em São Paulo e na Paraíba.
Historiador das mentalidades, memorialista, cronista de costumes, homem das organizações e das instituições, acadêmico da APL e APC, Wills Leal, autor de “A aventura do amor atonal”, viveu acima de qualquer tom sempre coerente, superou conflitos, foi preso pela ditadura militar de 1964, inaugurou cinemas imaginários, concretizou sonhos e se considerava uma pessoa feliz.
Wills eletrizante, incansável, sísifo iluminado, nos deixou quando ainda tinha muito por fazer.
Continuava grávido de ideias, propulsor radical que sempre foi.
Wills monumental.
Nos últimos dias, a pensar e caminhar na calçada do Cabo Branco, enxergando um pouco menos, mas vendo sempre mais o labirinto da nossa realidade, fará uma falta enorme.
