LEITURA INDISPENSÁVEL - JOSÉ LINS DO REGO


Ilustração de Portinari para Menino de engenho

Dez anos este ano da edição número 100 de “Menino de engenho”


O romance “Menino de engenho” (1932) mantém o frescor do melhor da literatura moderna brasileira do ciclo regionalista nos anos 1930.

 

Este ciclo começa com “A bagaceira” (1928), de José Américo de Almeida, e encontra na obra extensa de José Lins do Rego o apogeu.


Milton Hatoum considera “Fogo morto” (1943) uma “obra-prima da literatura brasileira”.

 

“Menino de engenho” se enquadra na mesma classificação.

 

A linguagem cinematográfica e emotiva do autor paraibano no seu livro de estreia continua conquistando leitores desde o lançamento.


(WG)


Do (capítulo) 12 


(Edição número 100, José Olympio Editora, página 47, Rio de Janeiro, 2010)


Vieram dizer no engenho:

- O chefe da estação de Pilar recebeu um aviso de que a cheia já vinha em Itabaiana. 

Não custava, portanto, a apontar entre nós. Diziam que o rio vinha de barreira a barreira. E uma tarde um moleque chegou às carreiras, gritando:

- A cheia vem no engenho de seu Lula!

Todos correram para a beira do rio - os moleques, os meninos, os trabalhadores do engenho, o meu avô. E começava-se a ouvir a gritaria da gente que ficava pelas margens:

- Olha a cheia! Olha a cheia!

- Ainda vem longe - diziam uns.

- Qual nada! Olha os urubus voando por ali!

De fato, com pouco mais, um fio d'água apontava, numa ligeireza coleante e espantosa de cobra. Era a cabeça da cheia correndo. E quando passava por perto da gente, arrastando basculhos e garranchos, já a vista alcançava o leito do rio tomado tomado d’água. 

- É água muita! O rio vai às vargens. Vem com força de açude arrombado. 

O povo a gritar por todos os lados. E o barulho das águas que cresciam em ondas nos enchendo os ouvidos. Num instante não se via mais nem um banco de areia descoberto. Tudo estava inundado. E as águas subiam pelas barreiras. Começavam então a descer grandes tábuas de espumas, árvores inteiras arrancadas pela raiz.

- Lá vem um boi morto! Olha uma cangalha!

E uma linha de madeira lavrada. 

- Aquilo é cumeeira de casa que a cheia botou abaixo. 

Longe, ouvia-se um gemido como um urro de boi. Estavam botando o búzio para os que ficavam mais distantes.