LULA, UM DEMOCRATA SELETIVO
Começo essa reflexão de hoje abrindo um link para a obviedade: a agenda das lideranças políticas interessa à sociedade por suas múltiplas dimensões simbólicas e práticas.
O conteúdo dessa agenda configura um balizamento político, um molde, por seus aspectos doutrinários, teóricos e político-eleitorais, e define a dimensão prática, o processo, do gesto moral que estabelece uma ética para a convivência.
Tanto a convivência política com prerrogativas e obrigações da cidadania, quanto a comunitária na articulação das práticas definidoras do ser social na história.
Nessa perspectiva, foi tristemente antipedagógico, um mau exemplo, mesmo, o fato de o ex-presidente Lula ter riscado da agenda a possibilidade de assinar manifestos em defesa da democracia como o recente “Estamos juntos”.
Ele argumenta que não poderia estar junto a golpistas, pessoas que apoiaram o impeachment da ex-presidente Dilma, nomes como o de Fernando Henrique Cardoso.
Também argumenta que se trata de um manifesto das elites, sem a presença de trabalhadores e trabalhadoras.
Lula quer se diferenciar. Fazer um contraste.
Para muitos, grupo em que me incluo, Lula está errado.
Não ao querer se diferenciar.
Mas quanto à oportunidade, ao momento histórico de uma reação ao bombardeio fascistoide.
Lula já beijou a mão de Roberto Jefferson.
Foi a Maluf pedir voto para Haddad.
E se recusa a assinar um manifesto em defesa da democracia para não ficar ao lado de FHC?
Lula, amicíssimo de Emílio Odebrecht, íntimo do pecuarista José Carlos Bumlai, deixou de conviver com o operariado há muito tempo.
Compreensível. Ele só se desloca de jatinho. Por razões históricas, é claro.
Para contrastar posições, repito, achei de péssimo tom ele ficar contra o manifesto, principalmente porque há alguns dias ele não pensou duas vezes ao declarar que Bolsonaro tinha razão ao criticar a suspensão pelo STF da posse de Alexandre Ramagem na diretoria-geral da Polícia Federal.
Lula alegou questões de poder relacionadas ao cargo. Por ser presidente, Bolsonaro, segundo Lula, não deveria ter a nomeação de Ramagem questionada.
Lula se apresenta agora como o democrata seletivo. A defesa da democracia não vale se se houver um “golpista” entre os defensores.
Mas vale a defesa da democracia mesmo se for para defender quem é contra a democracia.
Um raciocínio que está mais para oportunismo eleitoreiro do que para a prudência republicana.
Mas Lula sempre sabe o que faz…
(WG)
